21 de janeiro de 2010
ESCRUPULOSO
Abre o olho, para de me beijar,empurra meu ombro. Abre a boquinha e diz:
- Ei, pera aí. Você não é casado não, né?
- Eu não... - Dou uma risadinha e puxo ela pra perto de novo. Ela me empurra. Que irritante.
- Tem namorada?
Ás três da manhã, eu penso... que relevância tem isso?
- Claro que não, meu bem. Pensa bem, é terça feira, se eu fosse casado ou comprometido porque estaria num bar a essa hora da madrugada?
Ela faz cara de sabichona.
- É aí que tá. Os casados sempre vão pro bar nos dias de semana.
- E como você sabe disso, lindinha?
- Ah, eu sei. Sei muito bem.
Faz cara de quem tem muita experiência. Porque ela não cala a boca de uma vez?
- Quantos anos você tem, hein? Você tem cara de que é velho casado e com filhos.
Ela ri um sorriso branquinho. Quero comer essa boca.
- Eu sou velho e sem filhos.
Rio com ela e puxo pela cintura. Encosto na parede, mas que linguazinha esperta essa menina tem... E essa coxinha... Ela tira minha mão de debaixo da saia dela. Putz, que coisa chata.
- Me fala, quantos anos você tem?
- E isso lá importa? Olha, essa sua coxa é fenomenal.
- Importa porque eu só gosto de caras velhos, mas tem que ser solteiro.
- Quantos anos você tem?
- 25.
- Mentira. Você não tem 25, você é bem mais nova que isso...
- Quer ver meu RG?
- Quero.
Ela ri o riso branquinho.
- Não, não... tô mentindo. Tenho 19. Mas acho chique mulher de 25.
Essa menina só fala besteira. Mas essa coxa...
- Vem cá, você vai embora com quem?
- Com a minha amiga ali, mas parece que ela arranjou alguém com quem passar a noite.
Me olha com esse olhar oblíquo, mas ela é só uma menina. Não vou dormir com ela não. Mas e essa coxa?
- Eu te levo pra casa.
- Me leva pra sua.
- Não, eu te levo pra sua casa, e vê se sossega esse facho, porque você é só uma garotinha. E para de deixar os velhos safados e sem filhos que nem eu passarem a mão na sua coxa desse jeito, viu?
Às vezes eu odeio ter escrúpulos.
Mari comeu uma bolinha verde às 18:44

5 de janeiro de 2010
FRENÉTICA
Ah, vou na chuva mesmo, tá calor. E olha esse maldito andando aí bem na beirinha da rua, se passar na poça me molha toda. Imbecil. Nunca foi pedestre esse aí. Deve ser daqueles que quando anda de ônibus finge que tá dormindo pra não dar lugar pra grávida. Nasceu do ovo, esse aí. Jacaré.
***
Vou andando na chuva que tá gostoso, tá molhando meus óculos, mania de andar com óculos na cabeça. Mas tudo bem, agora vai ser ruim de guardar dentro da bolsa. Ah, nem ligo, nem ligo. Don't worry about a thing. Musiquinha no ouvido e eu ignoro toda essa gente feia. Quanta gente feia, meu deus. Olha um cocô ali. Será que é de cachorro? Espero que seja. Aqui só tem cocô, cocô, cocô. E nessa chuva, mistura na lama e a gente pisa e nem sabe que é cocô e a cidade inteira fica pisando em merda. Ninguém liga não, ninguém liga. Eu não entro em casa de sapato não, tem gente que entra, nem liga, todo mundo entra na minha casa de sapato e eu com uma preguiça ardida de passar pano, ixi... 'Cause everything is gonna be alright... Quem é esse jamaicano fedido que canta isso? Se eu perguntasse pra Elisa ela ia dizer que sabe, mas esqueceu. A Elisa sempre sabe tudo mas na hora dá um branco. Todo mundo acha ela muito inteligente, como sabe falar essa menina, muito inteligente, culta, culta. Culta nada, sabe é fingir. Também finjo que sou inteligente, olha aí... Abro a boca e saio falando de Kafka, Freud, Isadora Duncan e Mafalda. E o caralho a quatro. Finjo, finjo. Que nem a Elisa, mas ela finge melhor, não sei ser blasé que nem ela. Vaca, vaca. Mas gosto dela, gosto.
***
Sabe aquela menina que te deixa, seu coração na mão, aquela mulher irresistível, por quem você se apaixonou de primeirassa e te deixou perdido, amando sem possibilidade de gostar de mais ninguém nunca mais? É, eu não sou ela não.
Eu não deixava você não, falava só assim: Benzinho, vou ali rapidinho, me espera benzinho, volto loguinho. E voltava, com pão da padaria quentinho. Tudo inho que amor tem que ser tudo inho. Se não é inho é paixão e aí é tudo ão e não funciona. Ão, ão, ão. Não.
***
Eu aqui na chuva e aquele filho da puta passando com o carro na poça. Se me molhar mostro o dedo. Mostro nada, vai que ele desce? Covardinha que sou, pequenininha. Fiquei assim pequenininha porque minha mãe cantava aquela música da Menininha do meu coração, fique sempre assim, a três palmos do chão, fiz o que ela disse.
***
Ainda vou ser atropelada por um desses malditos ricassos de carro grande passando rápido. Vou nada. Tenho um acordo com o Barbudão, não vou morrer atropelada. Barbudão é Deus, porque Deus tem uma baita duma barba grisalha muito louca, usa bandana vermelha, colete de couro e toma cerveja. Me chama e diz: minha filha, vem cá, bebe essa breja gostosa aqui e me deixa te contar uma coisa. Ele fala assim no meu ouvidinho: É só por hoje, é só por hoje, agüenta as pontas que é só por hoje. E eu balanço a cabecinha e digo: Sim, Papai, porque Deus é pai, né? E é só por hoje.
***
Não quero morrer atropelada não, todo mundo ali, olhando, minha avó sempre diz pra não usar calcinha velha quando sai, vai saber se sofre um acidente e o médico vê a calcinha velha. E sem batom também não pode. Fico com o dobro do medo de ser atropelada se a calcinha for velha. Mentira, nem tenho medo. Coragem, coragem.
***
Queria ser rica. Quero uma casa na praia, no campo, no alto da serra. Quero aquele vestido da vitrine e o sapato que eu vi e aquela boina azul que eu nunca ia usar. Quero, quero, quero. Um curso no exterior, quero mussarela de búfala. Queroqueroquero.
Aí não quero nada, quero ficar nua no meio do mato ouvindo os passarinhos fififi no meu ouvido de olho fechado e o Barbudão falando: É só por hoje, minha filha. Quero o sol, o mar, nada nada nas costas, quero as fotos, aquela amiga e os peixinhos. Reciclagem.
Mas como disse o Rubens Fonseca, tão me devendo, me devendo, me devendo. Tá todo mundo me devendo. Casa,casaco, biquíni, amizade, celular, médico, dente, atum, bola de gude, bolsa do marc jacobs, chinelo, corte de cabelo e amor, amor, amor, amor. Tá todo mundo me devendo amor. Punhos indignados ao céu.
O outro disse: Você é delicinha, logo chega um deus do róquenrôl e te pega no colo. Tão me devendo esse também. Só tem o Barbudão, falando: É só por hoje, é só por hoje. E eu balanço a cabecinha tocando Led Zeppellin no meu ouvido, finjo que toco muita guitarra. Sou uma rockstar de primeira, você devia me ouvir cantando. Arraso. Mentira.
***
Esse porteiro que não abre a porta, por acaso sou bananeira pra ficar plantada aqui na porta? Porra, abre logo, tô toda molhada. Don't worry about a thing.
Mari comeu uma bolinha verde às 23:39

28 de dezembro de 2009
PISCINA
Na minha memória o dia estava ensolarado, uma leve brisa empurrava as folhas do jardim. Cercados por vasos que aos seus olhos pareciam gigantes compondo uma floresta, o menino de sunga roxa e a menina de maiô verde pulavam, antecipando a diversão.
A piscina de plástico, com desenhos de polvos, estrelas do mar e golfinhos, aguardava, disforme em cima do chão de pedra do jardim. Os paralelepípedos estavam mornos ao sol do meio da manhã.
Os dois gritavam animados, pela avó, para que começasse a aventura.
O menino, mais impaciente, tenta ligar a mangueira, mas a torneira é muito dura. Ele faz força, seu rostinho redondo de criancinha ficando vermelho. A avó chega e abre a torneira, apontando a mangueira para a massa de plástico disforme.
E a mágica começa... O plástico vai se abrindo, tomando a forma oval, revelando o centro azul convidativo. A menina bate palmas e saltita pelo jardim.
Cheiro de água de mangueira de plástico batendo no plástico da piscina. Cheiro da água fria na pedra aquecida. Cheiro do almoço sendo preparado na cozinha. Cheiro do perfume gostoso da avó. Cheiro de planta. Cheiro de terra.
O cheiro da infância.
As crianças não agüentaram esperar, e assim que as paredes de plástico continham água suficiente para ficarem em pé, os dois pularam dentro dela, um pezinho de cada vez, gritando de prazer. A água gelada arrepiou a pele toda e um mostrou pro outro como os pelinhos do braço ficaram eriçados.
A cor das pastilhas azuis da parede. A cor da piscina azul. A cor da mangueira laranja. Da sunga roxa do menino e do maiô verde da menina. A cor dos olhos verde-escuros da avó. A cor das sombras do jardim. A cor do sol batendo nas plantas. A cor escura dos cabelos das duas crianças.
A cor da infância.
O menino, na sua natureza de menino, logo jogou água na menina, provocando-a. Ela deu risada e jogou a água nele de volta. Os dois caíram na água rasa e começaram as experiências com seus pés e mãos, tentando boiar, tentando reconhecer as pedras por baixo do piso de plástico.
A avó dá uma ou duas instruções sobre a mangueira e entra para a cozinha. Uma panela de pressão apita e ela comenta que o milho deve estar pronto.
O som dos pratos na pia. O som do radinho de pilha da empregada. O som da janela do segundo andar sendo aberta. O som da água correndo. O som da voz da avó comandando a casa. O som da voz do avô pedindo um café.
O som da infância.
A água foi subindo, subindo, cobrindo a ponta da mangueira. As crianças flutuaram. Fizeram círculos na água para que ela as levasse, como numa correnteza. O menino brincou com seus soldadinhos, seus barquinhos de guerra. A menina pegou a boneca vestindo um biquíni brilhante e admirou os cabelos dela flutuando embaixo d’água. Eles compararam seus dedos enrugados, o menino os chamou de dedos de velha. Colocam os pés pra cima. A menina tenta plantar bananeira. O menino joga água para todos os lados. O jardim inteiro ficou molhado.
Uma nuvem cobriu o sol por um momento. Por um momento, as cores e os cheiros e os sons se perderam.
Mas o mundo era colorido demais, e a voz da avó chama as crianças para almoçar. Hoje vai ter bife com batata frita e suco de uva.
A piscina de plástico senta sozinha sobre o chão de pedra quente, água fria lhe dando um formato oval bonito, onde plantas e partículas do jardim bóiam, preguiçosas. Na minha memória.
Mari comeu uma bolinha verde às 18:39

12 de dezembro de 2009
ENCOSTADOS NA SACADA
Bêbado, ele olha pra ela surpreso:
- Mas você chegou a se apaixonar por mim um dia?
Ela resolve sustentar o olhar, por mais vontade de olhar pra baixo que tenha.
- Sim, você sabe que sim. Eu te falei. Eu tava bêbada, mas eu lembro.
Mexe o copo de uísque sem gelo, as pernas cruzadas. O vento gelado faz os pelinhos da nuca dela levantarem e ela estremece. Vontade de fazer xixi.
Ele fica pensando. Pela primeira vez a ficha está caindo. Mas muito lentamente, porque a ficha está encharcada de álcool.
Ela analisa os próprios sentimentos. Mexe o copo mais um pouco. Só tem um fundinho. Toma o resto. Não, definitivamente não está apaixonada.
- Mas é besteira você dizer que foi só porque eu disse pra você que não era pra você se apaixonar.
- Claro que foi. É só alguém falar pra mim: "Não se apaixone", liga um botão em algum lugar e eu me apaixono. É simples assim.
- Boa, na próxima vez que eu for te apresentar pra alguém, então, é só chegar e falar: Olha, cara, pra ela é só dizer assim: "Não se apaixo...”.
- Não, não é bem assim - interrompe, colocando o copo de lado.
Ela gesticula e imagina se às 3 da manhã alguém assiste o diálogo no prédio da frente.
- Claro que tem que ter todos os fatores ajustados e não dá pra dizer que a conversa entre a gente não flua e que eu não acho você super interessante. Tem a coisa da química também. Não é qualquer zé mané. Mas o fato é que eu não estava sentindo nada, estava de pura sacanagem com você até você proferir o enfático "Ó, vê se não vai se apaixonar por mim, hein?", coisa que, convenhamos, só confirma o que eu disse sobre você ser um babaca.
- Não me chama de babaca!
Ela ri, e empurra o ombro dele.
- Não põe a mão em mim não... Ele sorri, o sorriso mole de uísque. Puxa ela pra perto, a mão na cintura.
Ela o empurra pela décima vez na noite.
- Não, cara... Já te disse que não rola mais. - Ela fala sorrindo, do tipo quero-mas-o-fato-é-que-não-posso.
Mais uma vez analisa os sentimentos. Não, provavelmente não está apaixonada.
- Eu não acho que é assim não. Eu penso que... Eu vejo assim... - Ele gesticula lentamente, o mundo girando devagar - A gente se apaixona pela pessoa, né? Sei lá... Não sei o que eu quero dizer. Só sei que é assim.
A noite está gelada e iluminada pelas estrelas urbanas: um poste de luz ali, um apartamento aceso lá. Os dois se apóiam e ficam observando a cidade parada.
- Eu gosto daqui no pôr-do-sol. Aparece uma faixa violeta ali, ó.
Ela mostra, ele acompanha um dedo dela com o olhar.
- Eu quase me apaixonei por você também.
Ela tenta não olhar pra ele, manter a compostura.
- Como assim quase? Não existe quase se apaixonar. Não é algo que se faz pela metade. É a mesma coisa que dizer que está meio grávida.
Ele ri, uma risada baixinha.
- Mesma coisa que dizer que está meio grá... Nada a ver. Eu quase me apaixonei, poxa! Mas eu vi que não ia ser uma boa e pensei comigo mesmo que era melhor parar com isso.
Puxa ela pela cintura de novo. Ela o empurra, com um pouco menos de convicção.
Ela analisa os seus sentimentos mais uma vez. Não, talvez não esteja apaixonada.
- É, assim como eu também fiz uma releitura do que aconteceu entre a gente e decidi que não queria ficar apaixonada por você.
Silêncio. Madrugada. Sacada. Frio. Uísque.
- Eu vou embora, tá tarde.
- Tudo bem.
- Você quer que eu vá?
- Ué, você que está dizendo que vai.
- Você quer que eu fique?
- Você fica se quiser.
- Diz que quer que eu fique.
- Eu não vou dizer isso. Você fica se você quiser.
- Caramba, como você é difícil, mulher... Me dá um beijo?
- Não.
- Eu vou embora então.
- Tudo bem.
- Eu nem sei porque vim aqui.
- Porque você gosta de conversar comigo.
- É, eu aprendo muito com você. Mas você é um relacionamento de risco pra mim.
- Porque?
- Porque ela nem sabe que você existe e que a gente se fala.
- Ainda bem, não? É melhor ela não saber nem que eu existo mesmo.
- É... Mas eu gosto de você.
Ele coloca uma mexa do cabelo preto dela atrás da orelha, e passa um dedo pelo queixo pequeno e branco.
- Eu gosto desse seu contraste.
Ela analisa os sentimentos. Talvez esteja apaixonada.
Ele beija o rosto dela. A orelha. A boca.
O beijo encaixa. O resto é imaginação.
- Não, para, para, para tudo. Por favor, vá embora.
- Tudo bem. Desculpe. Você quer que eu deixe o uísque aqui e você me devolve o frasco depois?
- Não, leva com você. Eu tô te dando tchau.
- Tchau? Pra sempre?
- Acho que sim.
Ela analisa os sentimentos. Está apaixonada.
Ele relutantemente vai embora, murmurando desculpas. Ela se mantém serena, enquanto fecha a porta.
Analisa os sentimentos.
Mari comeu uma bolinha verde às 21:34

25 de novembro de 2009
CARTA (NUNCA ENVIADA) A UM EX-AMANTE I
E se eu não tivesse ido àquele bar naquela noite?
E se eu não tivesse atendido o telefone no dia seguinte?
E se eu tivesse dito não aos seus convites?
E se eu não tivesse acertado o despertador para a meia noite do seu aniversário?
E se você não odiasse o Carnaval?
E se eu não fosse jogar boliche com você?
E se você tivesse ligado para ela ao invés de mim?
E se você nunca tivesse dito que não podia se apaixonar por mim?
E se você não tivesse ficado bêbado?
E se você tivesse sumido?
E se eu tivesse ido embora?
E se eu tivesse escolhido o outro?
Você me disse que ainda assim teríamos ficado juntos.
Que nos conheceríamos em outro bar, em outra noite.
Que você me ligaria no dia seguinte até eu atender.
Que eu diria sim, sim, sim.
Que você teria se apaixonado de novo, mesmo não podendo.
Que você sempre escolheria a mim e não a ela.
Que eu sempre escolheria a você e não a ele.
E se eu tivesse ido embora?
Você disse que eu não iria, porque você foi antes.
CARTA (NUNCA ENVIADA) A UM EX-AMANTE II
Onde será que você está agora? Com quem será que você está agora?
E a pergunta mais importante... Onde será que eu estou agora que você partiu?
Quero que me devolva as horas, os minutos, os segundos que vivi pensando em você.
Chorando por você.
Quero de volta todos os beijos que gastei com você.
Quero de volta as minhas noites.
As noites quentes que passei com você e as noites frias que passei lamentando a sua falta.
Todos os presentes, aquele filme, aquela flor, aquela caixa, aquelas fotos, pode ficar.
Mas quero de volta a vida que desperdicei para que você pudesse voltar a viver.
CARTA (NUNCA ENVIADA) A UM EX-AMANTE III
Pensando bem, o erro foi meu.
O erro foi meu em achar que você se importava.
O erro foi meu em acreditar que você voltaria.
O erro foi meu em esperar que você fosse meu.
O erro foi meu em pensar que você ficaria ao meu lado.
Que você não mentiria.
A falsa esperança foi minha de que nós dois escreveríamos uma história juntos.
A falsa esperança foi minha porque esqueci o seu passado.
Mas o meu passado se faz presente. E eu sei que é errado se apegar por muito tempo.
O erro foi meu.
(Junho de 2009)
Mari comeu uma bolinha verde às 02:43

4 de novembro de 2009
NAQUELE CAFÉ, ÀS 14H
Ela bate os dedos impacientemente na mesa, fumando seu quinto cigarro da última meia hora. Nervosamente, coça a orelha, esfrega os olhos, tira uma mecha loira da testa.
Ela olha pra porta, olha pra porta, olha pra porta.
O garçom vem até a mesa, pergunta novamente se ela vai querer alguma coisa. Sem tirar os olhos da porta, ela faz um gesto como quem espanta uma mosca. "Não, obrigada. Estou esperando alguém".
O garçom se afasta.
Mais um minuto que parece uma semana. Mais um minuto que parece uma década.
Ele chega. Carrega uma sacola de papel de loja de sapatos.
Ele a vê. Ele senta na frente dela. Não olha pra ela. Cruza os braços. Coloca a sacola entre eles.
"Oi".
"Obrigada por ter vindo".
"Fiquei surpreso com a sua mensagem".
"Não pensei que você viria de verdade".
"Eu te respondi, não?”.
"Sim, mas você fez isso muitas vezes".
"Isso já faz tempo. Acho que o passado não é mais recente, podemos resolver isso civilizadamente".
"Essa sacola é pra mim?”.
"Sim... são suas coisas que você pediu, que estavam lá em casa".
"Ah. Obrigada..." - ela retira a sacola de cima da mesa e coloca no chão. Ele olha para as unhas, para o saleiro, para o paliteiro.
"Vou pedir um café. Você quer alguma coisa?”.
"Não, não. Você se importa se eu fumar?”.
"Voltou?”.
"Voltei..." - ela procura os olhos dele, incessantemente.
"Achei que você tinha parado. Você não estava mais fumando... no fim". Ele olha para o bar, a mão para cima.
"É, eu tinha parado. Você não gostava".
"Entendi".
Ele acena para o garçom. Um café e uma água.
Observando todos os movimentos dele, o cigarro entre os dedos, morde uma unha com os dentes do canto da boca.
O café chega imediatamente. Ele toma um pequeno gole, educadamente. Ele parece ter prazer no líquido quente, algo quase sexual. A camisa pólo, a calça de marca e os tênis da Nike contrastam com o vestido preto rasgado (de propósito), e as unhas descascadas e os All Star sujos dela. Ela morde o lábio, encarando-o.
Ela coloca os cabelos loiros, secos e pálidos, para trás das orelhas pequenas.
"Você emagreceu".
"É, eu perdi 25 quilos na clínica".
"Nota-se. Você era bem mais cheinha. Você está doente ainda?”.
"Não, não mais. Mas antes estava muito". - Os olhos dela são cobertos por uma parede de água.
Ele evita olhar para ela. Termina o café e toma a água. Ela abre os olhos, engolindo o choro, parecendo um animal assustado.
"E como vai o trabalho?”.
"Tirei uma licença médica. Só volto no mês que vem".
"Mas você disse que não está doente".
"Fisicamente não estou. Mas mentalmente é outra história...”.
Ele se mexe na cadeira, desconfortavelmente.
"E a sua família? Ainda estão no Paraná?”.
"Sim. Minhas irmãs continuam sem falar comigo, e meus pais estão por lá".
Uma veia salta na testa dele. O desconforto é evidente. Mais um gole de água.
"Bom. Você me chamou aqui porque queria suas coisas de volta. Suas coisas estão aqui. Você ainda quer me dizer mais alguma coisa?”.
Ela morde o lábio. As lágrimas não caem. Tenta encontrar algum sinal de que ele vá olhá-la nos olhos. Nada.
"Eu queria dizer muitas coisas. Mas parece que você não vai querer me ouvir".
"Você tem razão. Não estou interessado. Estou aqui porque sou civilizado. E porque sou um imbecil".
Ele faz sinal para o garçom, pedindo a conta.
Ela pega na mão dele sobre a mesa, e ele a retira, assustado, os lábios crispados, com nojo.
Ela quer gritar que ele a escute, por favor, que ela está ficando louca, que foi internada, que tentou se matar, que sofreu um aborto, que o filho era dele, que cortou os pulsos, que bebeu até desmaiar, que enfiou o carro num poste, que bateu a noite toda na porta dele e chamou até o amanhecer, mas ele não estava lá. Que o ama. Que ele a ame de novo, por favor.
Mas só consegue soltar um gemido.
Ele paga a conta, sem pedir troco. Ele olha para ela, seus olhos cheios de ódio.
Ele quer gritar que está com tanta raiva que não consegue nem pensar direito, que gostaria de matá-la com as próprias mãos, que não quer vê-la nunca mais, que só queria que a dor passasse, que pudesse amar alguém de novo, mas que ela apagou essa possibilidade para sempre.
Desvia o olhar.
"Fique bem. Até logo". – Se levanta e se dirige para a porta.
"Por favor, não vá".
"Preciso ir, tenho que voltar ao escritório".
"Você nunca vai me perdoar?”.
Ela suplica, o cigarro acabando em sua mão, olhando o homem em pé de costas para ela.
Ele fica parado, um instante, em silêncio.
Um instante que dura uma semana. Um instante que dura uma década.
Sem se virar, sem a olhar.
"Não".
Ele sai do café.
As mãos trêmulas sobre a mesa, o cigarro no cinzeiro, o olhar aguado fixado no nada.
Ela só sai do transe das memórias quando o garçom pergunta mais uma vez se ela aceita mais alguma coisa.
Mari comeu uma bolinha verde às 21:23

26 de outubro de 2009
APÓS
Ela vira pro lado, e deita com a barriga pra baixo enquanto puxa o lençol com o pé. Se estica toda para alcançar o copo no criado mudo e o maço de cigarros.
Ele está sorrindo, olhando pro teto com um braço embaixo do travesseiro. Com o outro braço tenta puxá-la para si, mas ela se desvencilha com um "pera aí". Suado, ele passa a mão na barriga, sentindo seus músculos definidos. Passa o dedo em cada um deles, sentindo sua firmeza, num gesto impensado, familiar.
"E aí? Tá tudo bem? Foi como você achou que ia ser?"
Ela não responde. Preguiçosamente, se senta na cama, com as pernas esticadas, o lençol por cima delas. Ergue um dos joelhos e apóia o copo nele, enquanto fuma. Dá uma tragada e solta a fumaça devagar. Também olha para o teto.
"É tão clichê fumar depois de trepar, você não acha?"
Ele olha pra ela, ainda sentindo seu abdômen. Se estica um pouco e dá um beijo no pescoço dela. Ela não esboça nenhuma reação, apenas continua fumando e bebendo, lentamente, seu olhar fixado no nada.
"Mas e aí? Você não me respondeu... foi como você achou que ia ser?" - Ele olha pra ela, ansiosamente, apoiado em um cotovelo.
Ela olha para ele com o canto dos olhos verdes. Tira uma mecha de cabelo vermelho da testa e suspira.
"Sinceramente? Não."
"Como assim, não?"
"Não, ué. Não foi como eu achei que ia ser."
"Foi melhor então?" Ele sorri, e faz menção de abraçá-la, puxando sua cintura.
Ela tira a mão dele.
"Cara, você é mesmo fascinado por você mesmo, não?"
"Como assim, gata?"
Ela revira os olhos, e empurra ele gentilmente.
"Nada não... deixa pra lá. Olha só, você quer um cigarro?"
"Não fumo. Faz mal pra saúde".
"Ah, é mesmo... esqueci que você é o garoto-academia. E aquelas bombas que você toma, fazem bem?"
"Não é bomba, porra! É vitamina!"
"Ah, tá... Entendi."
Ele se vira pra parede. Ela continua sentada, fumando seu cigarro lentamente, um dos seios aparecendo por cima do lençol que envolve seu corpo. O silêncio se estende por alguns minutos.
Subitamente ele levanta e coloca a cueca. Senta-se na cama, de costas para ela. Áspero e revoltado, diz:
"Mas como assim não foi como você esperava? O que você esperava então?"
Ela coloca o copo vazio no criado mudo, apaga o cigarro. Senta no meio da cama de pernas cruzadas, seu corpo magro e branco, sua nudez contrastando com o azul escuro do lençol. Ela joga a cabeça pra trás e puxa os cabelos para cima, fazendo um coque, enquanto diz, de maneira prática:
"Cara, olha só. Mais clichê do que fumar depois de trepar é perguntar pro outro qual foi a sua performance. A famosa pergunta” Como foi pra você “nada mais é do que um alimento pro seu ego masculino. Você na verdade quer ouvir que foi ótimo, um perfeito macho, que eu gozei que nem uma louca, que foi a melhor trepada da minha vida. Mas eu sou sincera. Você pergunta, eu respondo, simples assim. E eu sinceramente esperava... bem... o que se espera de sexo, normalmente? Que seja no mínimo excitante, não?"
Ele olha pra ela como quem não está entendo absolutamente nada, estupefato.
"E não foi? Porra!"
Ela deita na cama, espreguiçando-se. "Não, não foi. Desculpe se não era isso que você queria ouvir."
Ele levanta, e começa a se vestir. Ela começa uma busca pelo maço de cigarros no meio dos lençóis. Acende um, deitada de barriga pra baixo.
Ele termina de colocar as meias, e bufando, com as mãos na cintura, diz:
"Acho que já vou então, se você não se importa."
"Fique a vontade."
Ele hesita por alguns momentos.
"Acho que você não vai querer que eu pegue seu telefone, né?"
"Na verdade não..."
Ele arregala os olhos. Calça os tênis e se dirige à porta.
"Menina, acho que você não é normal".
"Não, graças a deus". Ela esboça um sorriso, e sopra a fumaça em direção a ele. "Quer que eu abra a porta pra você?"
"Por favor".
Ela levanta, coloca o cigarro no cinzeiro, coloca uma camiseta jogada num canto e veste a calcinha jogada num outro.
Descalça, ela é mais baixa do que ele lembrava. O coque está se desmanchando, o rímel um pouco borrado. Mas isso a torna mais desejável. Ele sente vontade de pegá-la e mostrar que está errada, que ele pode ser excitante.
Ela gira a chave. Abre a porta.
"Até mais".
Ele fica olhando para ela por alguns instantes, confuso.
Ela fica olhando para ele por alguns instantes, impassível.
"Até mais".
Ela fecha a porta.
Ele fica parado olhando para a porta descascada. O prédio não tem elevador, ele desce as escadas.
Ela deita na cama e abre um livro.
Mari comeu uma bolinha verde às 15:11

2 de julho de 2009
NEW ORLEANS
No final de setembro de 1970 o pneu do meu carro furou na estrada logo antes de chegar a Baton Rouge, às seis horas da tarde. O céu estava violeta e eu estava usando aquela jaqueta velha que meu amigo Mark me deu. Ela estava rasgada no cotovelo, mas eu nem ligava. Tinha colocado alguns bottons nela porque achei que dava um toque legal. Era minha jaqueta preferida.
Abri o porta-malas e descobri que estava sem estepe. Devia ter checado isso antes de sair de casa. Lembro de ter pensado: Mas que droga, maldita a hora que decidi pegar esse carro emprestado.
O carro era um Camaro azul com um amassado na porta, que meu tio Tony tinha me emprestado. Eu ainda não tinha juntado grana o suficiente pra comprar o meu, mas eu já tinha em torno de 800 dólares guardados, além do dinheiro que estava usando pra ir até New Orleans, o que naquela época era mais dinheiro do que um rapaz como eu podia sonhar. Mas eu dei um duro danado trabalhando num restaurante perto da Universidade de Memphis, Tennessee. Era fácil trabalhar lá, porque as garotas eram um colírio.
A alguns metros de onde meu pneu furou tinha um posto de gasolina e um motel.
Cheguei lá e pedi ajuda, mas o encarregado do posto estava sem pneus e só iria buscá-los no dia seguinte. Ele me aconselhou ficar no motel ali mesmo. Era um prédinho capenga, com apenas cinco quartos, todos vagos.
Como estava escurecendo, decidi ficar, afinal já estava acabado da viagem. Eu tinha dirigido por umas oito horas seguidas desde Memphis e só ia chegar a New Orleans se seguisse por mais três horas.
O rapaz do posto me ajudou a empurrar o carro até o estacionamento. Agradeci e, esfregando as mãos, fui até a recepção. A placa de néon que dizia "Temos Vagas", piscava com um "e" e um "a" queimados. "T mos V gas".
A mulher atrás do balcão devia ter seus 40 anos, ou pelo menos a pele e os dentes estragados de cigarro, o cabelo emaranhado e as unhas sujas não davam menos idade a ela. Ela usava umas fitas na cabeça, como os hippies naquela época costumavam usar. Não era de todo estranho encontrar hippies naquela época, só era estranho encontrá-los na gerência de motéis de beira de estrada em Baton Rouge.
A voz dela era bem rouca e ela estava fumando um baseado. Me deu o quarto número quatro, porque, segundo ela, quatro era o número do dia em que ela ia morrer. Achei muito estranho e pedi o de número um. Ela deu uma risada meio macabra e disse: Se você quiser... Mas quatro é um dia bom para morrer, menino, quatro é um bom número.
Peguei a chave e fui pro quarto.
O papel de parede estava descascando, as cortinas estavam encardidas, mas o quarto estava limpo. Pelo menos a olho nu. Tirei minhas botas, deitei na cama e tentei ligar a televisão, mas ela estava quebrada. Coloquei as mãos atrás da cabeça e fiquei olhando pro teto e tentei contar quantas rachaduras consegui achar.
Ouvi uma batida na porta. Abri e era a mulher da recepção. Ela deu aquele sorriso amarelado e me perguntou se eu queria fumar um. Eu disse que não. Não estava com vontade. Ela me perguntou se eu estava com sono, e se eu não estivesse, se eu queria sentar com ela na varanda enquanto ela tocava violão.
Pensei comigo mesmo: "E por que diabos não?".
Sentei ao lado dela na varanda, em cadeiras de balanço, e enquanto ela fumava e tocava o seu violão, me perguntou o que eu estava fazendo ali e pra onde ia. Disse que estava indo pra New Orleans.
Ela sorriu, olhou pra mim. E eu vi que seus olhos eram lindos. E que ela não devia ter mais de 26, 27 anos. Fiquei tentado a perguntar a idade dela, mas eu sou um cavalheiro. E um cavalheiro nunca pergunta a idade de uma dama, mesmo se ela seja uma hipponga gerente de um motel na beira da estrada de Baton Rouge.
Ela tinha olhos castanhos claro e seu cabelo era aloirado. Ela não era bonita, seu rosto era pequeno. Mas de repente, ao olhar seus olhos sorrindo, percebi que ela era muito atraente. E ela disse:
"Ah, New Orleans...”.
Tocou algumas notas no violão. Respirou fundo, deixou ele de lado e deu uma puxada no baseado.
"Eu fui pra New Orleans uma vez, com o Bobby. Nós furamos o pneu aqui em Baton Rouge, não muito longe da onde você furou o seu. Mas o carro era roubado e não dava pra esperar. Ficamos esperando pelo trem e eu estava triste, ele disse que eu estava com uma cara tão cinza quanto os meus jeans", fez uma pausa pra dar outra puxada. Ela balançava na cadeira e olhou pro teto enquanto sorria. Eu não me atrevi a interromper, porque ouvir aquela voz rouca era fascinante.
"Ele fez um caminhão parar e nós pegamos carona. Eu tinha uma bandana vermelha e guardava minha gaita dentro dela. Fui tocando enquanto o Bobby cantava blues. O pára-brisa marcava o tempo, e eu segurava a mão do Bobby na minha. Nós cantamos e tocamos todas as músicas que o motorista conhecia. E ele nos deixou em New Orleans. Era muito fácil a gente se sentir bem quando o Bobby cantava o blues".
Ela ficou em silêncio por um bom tempo, fumando e balançando, com um sorriso meio maníaco nos lábios. Fiquei pensando se ela não era completamente louca, mas ao mesmo tempo me fascinava de maneira inexplicável. Como ela não falava mais nada, resolvi perguntar alguma coisa, mas assim que abri a boca ela continuou:
"New Orleans foi mágico. Depois passamos por Kentucky, vimos as minas de carvão lá. Fomos até a Califórnia, vimos o país inteiro. E eu contei todos os segredos da minha alma praquele homem. Vimos nevar, chover, ficamos sem grana, sem fumo, sem coca, ficamos sem roupa, mas o Bobby me esquentava".
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela sorria mesmo assim.
"Um dia, perto de Salinas, meu Deus, eu o deixei escapar. Ele estava procurando por um lar, e eu espero que ele encontre", ela fez uma pausa, abaixou a cabeça e olhou bem no fundo dos meus olhos, "Mas uma coisa eu te digo, menino. Eu daria todos os meus amanhãs por apenas um dia de ontem, quando abraçava o corpo do Bobby pertinho do meu".
Ela levantou, pegou seu violão e se dirigiu à recepção. No meio do caminho virou-se e continuou andando, de costas, enquanto dizia, "A liberdade é só uma palavra para dizer que você não tem mais nada a perder, meu menino. E foi exatamente isso que o Bobby me deixou: nada. E, meu Deus, era muito fácil a gente se sentir bem quando ele cantava o blues".
Ela deu uma risada rouca, jogando a cabeça pra trás, e com o violão jogado nas costas, voltou para a recepção.
Eu voltei para o meu quarto e não consegui dormir naquela noite. Quando amanheceu, vesti minhas botas, e deixei a chave na recepção, mas ela não estava lá. Deixei o dinheiro do quarto no balcão e fui embora.
Troquei meu pneu e caí na estrada. Meti o pé no acelerador e peguei a primeira saída.
Só conseguia pensar no que ela tinha me dito. "A liberdade é só uma palavra para dizer que você não tem mais nada a perder".
Me pergunto se ela morreu num dia quatro.
*(texto baseado na Música Me&Bobby McGee de Kris Kristofferson e Fred Foster)
Mari comeu uma bolinha verde às 17:17

1 de julho de 2009
Sorte
Sorte sua se você nunca viu um olhar de adeus nos olhos dele.
Sorte sua se você simplesmente não acreditou.
Sorte sua se você nunca estranhou.
Sorte sua se você nunca se debruçou sobre o corpo dele e duvidou.
Sorte sua se você nunca se arrastou e arranhou e se agarrou nos seus cabelos, seu pijama, no seu peito, nos seus pés.
Sorte sua se você nunca ficou ao pé da cama, sem carinho, sem coberta, num tapete atrás da porta.
Sorte sua se você nunca reclamou baixinho.
Sorte sua se você nunca quis sujar o nome dele.
Sorte sua se você nunca quis humilhar.
Sorte sua se você nunca quis se vingar à qualquer preço.
Sorte sua se você nunca adorou pelo avesso.
Sorte sua se você nunca quis mostrar pra alguém que era dele. Só dele.
Sorte sua se você nunca ouviu Elis Regina cantando e sentiu cada nota, cada palavra, cada pausa cortando o seu corpo em milhões de pedacinhos.
E até que você saiba, até que você queira morrer ao som do nome dele, até que você queira até não aguentar mais querer, até que você ame demais... você não saberá quem sou eu.
(Janeiro de 2009)
Mari comeu uma bolinha verde às 23:23

25 de junho de 2009
Uma tarde do mês de junho
Uma menina senta, quietinha, enfiada no meio de duas almofadas de um sofá de vinil bege que não parece ser muito confortável.
Veste um uniforme escolar, calça de moletom azul marinho, camiseta branca. Pedaços de corvino costurados nos joelhos. Cabelos bagunçados, uma tiara vermelha.
As sobrancelhas franzidas por cima dos óculos pequenos, por cima do nariz de criança. Lê uma revista de fatos científicos com muita atenção.
Uma moça senta do lado dela e diz:
- Oi pequena!
Ela olha pro lado e abre um sorriso enorme, cheio de dentes, faltando apenas o da frente.
- Oi! Sabe que estou aqui desde as duas da tarde?
- Eu sei, o papai me ligou, mas eu só consegui sair do trabalho agora. Quem mais está aqui?
Ela aponta o dedinho para a porta de vidro com o logotipo de hospital que dá para o corredor.
- Minha vó, mas ela foi buscar dois reais.
- Dois reais pra quê?
- Pra colocar naquela máquina super legal que tem ali do lado. Sai doce e salgadinhos de lá de dentro se você colocar dois reais, você já viu isso?
A moça sorri, fazendo um carinho na cabeça da menina.
- Já vi sim, é bem legal mesmo. O que você vai escolher?
- Até agora eu já comi três pacotes de uma coisa de bacon, muito boa. E M&M's também.
- Desse jeito você vai falir a sua avó.
- Que nada, ela gosta de me dar dinheiro.
- É... Aposto que gosta. Ei, me dá um abraço?
A menina abraça a moça, meio desajeitadamente.
- E aí, eles já entraram na sala de cirurgia?
- Já. O papai colocou uma touca azul.
- Ficou engraçado? - a moça passa a mão no rosto da menina, delicadamente, examinando-o, com os olhos meio fechados.
- Não. Ficou feio.
- Hum... O que você está lendo?
- Essa revista aqui.
- Eu sei, mas sobre o que é?
- Ciências. É uma matéria que eu sou bem boa na escola.
- É mesmo? E você descobriu algo interessante aí? - a moça olha por cima do ombro da menina.
Ela folheia a revista um pouco.
- Só que os golfinhos se comunicam por ondas celebrais.
- Cerebrais.
- É, essas também.
Ela fecha a revista.
Uma senhora bem magra e baixinha entra na saleta.
- Oi Camille, tudo bom?
- Tudo bem, Dona Celestina?
- Tudo bom. Olha, lindinha, o dinheirinho pra você pegar o salgadinho.
- Valeu, vó!
A menina sai correndo.
Dona Celestina e Camille trocam amenidades. Como foi de viagem, como está o trabalho, como anda a vida, como vai você.
Outra senhora, vestindo um conjuntinho leve cor de rosa, entra na saleta.
- Minha neta!
Camille vai em direção a ela e a abraça.
- Oi vó. Tudo bom?
- Tudo bem. Olha só o que eu trouxe.
Um buquê de rosas de chocolate.
- Onde está a Helene?
- Foi pegar um salgadinho naquelas máquinas, lá em cima.
- Ah.
As duas senhoras se sentam e falam muito pouco.
Camille vai até uma janela e espia o mundo lá fora.
Está escurecendo, mas ela consegue ver bem o bairro do Morumbi inteirinho da janela do hospital. Esse andar é bem alto. Favelas, condomínios de luxo, o Palácio do Governador, muitas árvores. Tudo junto. Uma mãozinha puxa seu cotovelo:
- E aí, Cami? Quer um pouco?
A moça sorri olhando aquele buraco de dente faltando na boca cheia de salgadinho.
- Não, pequena, brigada.
Passa o braço em torno da criança.
- Você tá bem grande, logo me passa, hein?
- Acho que não.
- Como não? Claro que sim! Você vai ficar bem mais alta que eu.
- Mas isso não tá certo.
- Por quê?
- Porque você tinha que ser mais alta que eu pra sempre. Você é mais velha.
A moça ri alto.
- Ai, Helene... Você é demais.
- Não sei por quê...
Entra um homem esbaforido, na sala. Os olhos brilham, o cabelo dele é escuro como o de Camille. Ele veste um avental azul, uma touca azul e sapatilhas de pano azuis.
- Oi, oi, oi, todo mundo! A Celeste já está indo pro quarto! Oi mãe! Oi filha! Fiquem de olho no berçário!
E saí correndo, enquanto Camille faz um meio gesto de olá.
Dona Celestina sai correndo atrás dele.
- Espera, Yves!
A segunda senhora diz:
- Bom, meninas, não vou atrapalhar, vou deixar essas rosas aqui e vocês entregam pra ela depois, está bem?
- Está bem, vó, pode deixar. - Camille pega o buquê de chocolate.
- Você não achou inteligente esse buquê de chocolate? Afinal, eles não deixam entrar com flores no quarto! E essas ela pode comer, pelo menos.
Camille olha para as rosas, para Helene e para sua avó.
- Sim, vó, muito inteligente.
A avó ri.
- Sabia! Bom, até mais, netinhas.
As duas se sentam no sofá de vinil bege.
- Cami, você sabia que eu tenho exatamente nove anos, cinco meses e dezenove dias?
- Nossa, tudo isso, já?
- É. Eu fiz essa conta rapidinho. E a sua conta dá pra fazer mais rápido ainda, porque você fez aniversário outro dia mesmo, né?
- É verdade.
- Você tem 20 anos e três dias. Né?
- É.
Camille pega a mão da menina e começa a medir os dedos dela em comparação com os seus.
- Você está tão grande... Olha só, os seus dedos perto dos meus! Outro dia mesmo você era um bebezinho.
- No dia que eu nasci, quantos anos você tinha?
- Dez.
- Mas quantos anos exatamente?
Camille franze a testa, raciocinando.
- Dez anos, seis meses e 15 dias.
- E você lembra do dia que eu nasci?
- Lembro. Eu estava comendo pizza na minha casa e o papai me ligou e disse: "Sua irmã nasceu! É menina! O nome é Helene!". E eu lembro que achei um absurdo, porque eu sempre quis dar esse nome pra minha filha, caso eu tivesse uma.
- E não quer mais?
- Não.
- Por quê?
- Porque esse nome já é seu. E eu gosto que seja só seu.
- Entendi.
Helene olha bem pra irmã mais velha e coloca o dedo indicador na ponta do nariz da moça.
- Eu não consigo imaginar como você era quando você era pequena.
- Como não? Eu já te mostrei foto, não?
- Sim, mas não sei o que você fazia. Você brincava?
- Nossa, eu brincava muito. Eu me fantasiava.
- Se fantasiava de que?
- De princesa, de super-heroína, de camponesa, de fada, de patinadora...
- Sua mãe comprava tudo isso pra você?
- Não, eu improvisava, pegava umas roupas velhas de dança da minha mãe, porque ela era bailarina quando eu era pequena, sabe?
- Não sabia.
- Pois é... Então tinha um monte de fantasias assim. E eu tinha um monte de bonecas. E eu tinha primas, e eu brincava com elas.
- Minhas primas?
- Não, primas filhas do irmão da minha mãe.
- Ah, e não são minhas também?
- Não... São do lado da família da minha mãe, entendeu?
- Ah tá.
Helene fica em silêncio por alguns segundos. Camille olha bem para o rosto preocupado da menina.
- Cami, por que o seu pai e a sua mãe se divorciaram?
Camille cai na risada.
- O NOSSO pai e a minha mãe, você quer dizer?
- É. Mas na época ele era só seu pai, né?
- É, na época era.
Camille pensa um pouco.
- Olha, pequena, é difícil explicar.
- Tente.
- Bom... Algumas vezes, as pessoas se casam muito jovens e aí não dá muito certo porque elas não estão preparadas para isso.
- Mas você não vai se casar com o Mauro?
- Vou. Mas só daqui a algum tempo.
- Mas você é muito jovem.
- Sim.
- Então não devia se casar.
- Mas não é só isso... Às vezes as pessoas acabam brigando muito, se desentendendo e de repente não dá mais certo ficarem casadas, entende?
- Meus pais brigam sempre.
- Bom, mas isso não quer dizer que eles vão se separar. Nem sempre a briga é motivo pra isso. É bem complicado.
- Adultos são muito complicados.
Camille ri mais ainda e abraça a irmã.
- É verdade. Vamos dar uma olhada no berçário e ver se ela já está lá?
- Vamos.
Elas dão as mãos e caminham pelo corredor frio do hospital, até chegarem em frente a uma sala com uma grande janela de vidro.
- Não enxergo nada, você vai ter que me levantar.
- Ok.
Camille pega Helene nos braços e as duas ficam olhando os bebês dormindo. Uma enfermeira acena para elas.
- Nossa, Cami, olha esse menininho, que pequeno!
- É mesmo, bem pequenininho. Essa menina ao lado dá quase duas dele!
- É mesmo! Que gordinha, né? E ruiva.
- Uma graça.
Camille olha na pulseirinha do menino.
- Ele chama Victor.
- Gostei.
- E ela... - Camille aperta os olhos - Ela chama... Marie. Marie? Helene, é a Marie!
- Essa bebê gorda é a Marie? Que giganta!
As duas riem.
- Nossa, pequena, vocês duas vão ser maiores que eu, pelo jeito. Essa nossa irmãzinha é enorme.
E a menina de óculos e cabelos emaranhados encosta o nariz no vidro, enquanto sua irmã mais velha derrama uma lágrima, enquanto a segura no colo.
Mari comeu uma bolinha verde às 03:16

23 de junho de 2009
Uma máxima da vida: Quando você está solteiro, todos estão em casa namorando com alguém, quentinhos embaixo de algum cobertor.
Quando você está namorando, todos estão solteiros se divertindo horrores em algum lugar e não vão te chamar porque acham que você vai preferir ficar quentinha embaixo de algum cobertor.
Life sucks.
Mari comeu uma bolinha verde às 14:07

26 de abril de 2009
ON MY OWN
It's almost dawn and we'll soon be awake. It's cold, but I have his arms around me, so no cold will get me, no shiver, no breeze. We're warm and in this moment between sleep and awakening I know he'll take me somewhere magical later.
We can go walking on the beach, feeling the cold sea breeze on our faces as we run together, feeling the tickling on our toes as we draw and write our names on the sand.
We can go take some pictures, we can go eat apples at the market. And he'll hold me tight in his strong arms, and he'll take my hand and spin me around and call me his little one. I'll know, I'll feel that I'm his girl, and that he is mine, all mine.
We can compare our all star sizes. Mine a six and his a nine and a half.
We can go watch a movie and talk about it for hours. We can eat popcorn and make jokes about people we find on our way. We can go dancing, awkwardly and clumsy, not caring about the rest of the world. We can jump together to our favorite song and he'll laugh that I'm shorter and take me in his arms again, and kiss me.
And we can kiss, and laugh and kiss some more. And he'll touch me the way only he knows how to. He'll press all the right buttons and make all the right connections. And we'll surrender to each other and I'll touch him like this, and he'll kiss me like that. And we'll sleep.
And as the morning slips in through my window, I feel all slipping away.
Then, I remember I'm on my own.
Mari comeu uma bolinha verde às 03:54

BALLET MODERNO
Entre café, licor e caquis de sobremesa num almoço de domingo:
Vô: É um monte de gente se arrastando pelo chão.
Mãe: É nada, eles pulam bastante.
Vó: Quem ouve pensa até que é um monte de gente jogada, se arrastando no chão.
Vô: Mas é.
Mãe: Eu pratiquei muitos anos essa técnica, pai, não é assim, é muito bonito.
Vô: É, é muito bonito. Pra quem tá no chão, se arrastando, se rolando, pode ser. Mas pra quem tá em pé...
Mari comeu uma bolinha verde às 03:25

FIM
Ela ouve a batida discreta e vê a luz do corredor acesa, revelando a sombra dos pés dele por baixo da porta.
Olha no relógio: uma da manhã. Os pés gelados e o rosto quente. Um alívio na boca do estômago e uma fisgada logo depois. Enxuga os olhos na manga da camisa xadrez que está usando. A camisa dele. Abre a porta, os olhos dela vermelhos de choro, os olhos dele vermelhos de bebida.
- Oi.
A voz mole, o bafo de bebida, o olhar frio e rude. Ela vira as costas, e volta de braços cruzados para o sofá, deixando a porta aberta. Ele entra e tranca a porta atrás de si. Vai atrás dela e senta no pufe preto no meio da sala.
“Será que ele sabe que essa é a última vez que ele vai sentar nesse pufe?” – A cabeça dela está a mil. – “Preciso ter força, preciso ter força. Não quero mais essa merda”.
Ele olha pra ela, os olhos fundos de bebida, fumaça e sono. Ela lembra quantas vezes a mesma situação já foi encenada pelos dois. Uma pontada no coração, como se alguém espetasse com uma agulha de epidural.
- Bom, e aí? O que você tem pra me falar, Letícia?
- Eu não tenho porra nenhuma pra te falar, Mauro. Eu tô cansada demais. Eu tô seca por dentro, tá entendendo? Você sugou toda a água, não tem mais nada. Não consigo chorar, não consigo falar, não consigo nem mexer a porra do dedo do pé. Eu tô me sentindo um lixo, tá?
- Tá.
- É só isso que você tem pra me dizer? “Tá”? Puta merda.
- Mas o que você quer que eu diga, meu?
- Nada, Mauro, nada. – Estala os lábios. Olha pela janela, vê as luzes nos prédios vizinhos, a rua iluminada e pensa que queria ser feliz. - Olha Mauro, só você mesmo pra ouvir alguém te dizendo que você faz com que a pessoa se sinta um lixo e não tem nada pra dizer em relação a isso. – Fecha os olhos. - E provavelmente não sente nada também.
Mauro olha pela janela, pisca os olhos três vezes, como quem tenta enxergar melhor. Esfrega os dedos na testa, e encara o chão, sem dizer nada. A cada movimento que ele faz, Letícia sente mais nojo e solidão. A pausa e o abismo entre eles se estendem cada vez mais. Ela pensa se algum dia ele vai falar alguma coisa que preste. Se ele vai pedir pra ficar mais uma vez. Se ele vai embora se ela pedir. Se ele vai chorar ou rir. Se ele vai ligar. Se ele vai beijar outros lábios. Se ele vai ser feliz. Se ela vai ser feliz. Se ela vai rir ou chorar. Se ela vai beijar outros lábios. Se ela vai dançar, ler, sentir falta dele e comer pipoca. E sente nojo. E o desprezo por ele cresce e se alarga.
Mauro suspira, com a cabeça entre as mãos. Olha pra ela com olhos de dúvida.
- Eu não tenho mais nada pra te dizer, Mauro. Tudo o que eu podia dizer e pensar e sentir acabou. É isso. Cheguei ao fim. A gente chegou ao fim, e você tá tão bêbado que nem percebe isso.
- Eu não tô bêbado, caralho!
- É, tô vendo.
Pausa. Ele faz carinho no gato.
- Não faz carinho no meu gato. Ele odeia quando você tá bêbado e mexe nele.
- Já falei que não tô bêbado. Achei que era nosso gato.
- É. Era. Não é mais. Ele olha pro gato e faz cara de espanto. O gato devolve um olhar de sono e balança o rabo, demonstrando certo desgosto pela situação um tanto familiar.
- Quer saber? Que se foda. A partir de hoje você bebe o quanto quiser e faz o que bem entender, beleza? – Ela suspira. – Cansei dessa bosta de relacionamento.
- É, é melhor mesmo a gente terminar. Os dedos do pé dela agarram o tecido do sofá. “Será que isso vai acabar? Ele vai embora mesmo dessa vez? Ele disse que nunca iria, que nunca iria me deixar sozinha, beijando a minha nuca, contando as pintas no meu ombro, mordendo a minha orelha, ele prometeu. Será possível que ele não vai sentir a minha falta? Eu quero que ele vá embora, morra, caia de avião, eu quero que ele queira ficar. Tenho que acabar com essa palhaçada”.
- Então... Pega as suas coisas, por favor. – Ela olha fundo nos olhos dele, querendo ver a dúvida, desafiando. Ele se levanta devagar e vai até o quarto. Abre a gaveta, puxando com força porque sempre emperra. “Ele tinha ficado de consertar isso aí. Acho que vai ficar emperrada pra sempre”. Mauro pega algumas roupas. Coloca numa mala.
- Não, Mauro, pega tudo. Ele olha bem pra ela, como alguém que finalmente entende alguma coisa. Ela olha pro outro lado, pega uma blusinha laranja e sai do quarto. Ele pega tudo e joga dentro da mala. Letícia sente a agulha de epidural entrando um pouco mais fundo no peito, enquanto troca a camisa dele pela blusinha laranja no banheiro.
- Toma aqui tua camisa. Não quero lembrar de você quando ver ela aqui. Os olhos dele brilham de raiva por um instante. “Pronto, agora ele reage”. Ele vira as costas e vai até a porta da sala, arrastando a mala pela alça. “Ele vai embora mesmo. Ele vai embora. Ele vai. Sem falar nada?”.
- Caralho, Mauro!
- Que que é, Letícia?
- Impressionante a tua capacidade de filha-da-putagem! A raiva brilha mais forte no preto do olho dele. Mas não diz nada. - Todos esse anos e você não tem mesmo nada decente pra me dizer? Você vai simplesmente dar o fora e pronto?
- Não é o que você quer? Não é o que você tá me pedindo? – Ele larga a mala e abre a mãos. Os dedos compridos e marcados. As mãos abertas como quem não sabe se arranca os próprios cabelos ou se dá um tapa na cara. Ela dá um passo pra trás instintivamente.
- É, é o que eu quero. – Ela levanta a cabeça desafiadoramente. – Porque eu tô cansada disso aqui.
- Então... – Ele pega a mala. Ela fecha os olhos. Tudo dói.
- Mauro... Você vai sentir falta de dormir junto comigo?
- Vou, Lê. Vou sentir pra caralho. De tudo. Mas você sabe que não vale a pena. Ela diminui dez vezes de tamanho, olhos no chão. Ele tem razão.
- Olha, Lê. Eu te amo, pra caralho, meu. Muito mesmo. Mas a gente não tá mais apaixonado.
A vontade de discutir com ele é maior que a sua vontade de concordar.
- E o que que a paixão tem a ver com o amor, meu? Pô, aí é que tá a nossa diferença. Você não faz a mínima idéia do que é o amor e o que é a paixão. Seis anos e você não sabe ainda. Puta merda.
- Lê, olha só. Eu vou pra casa da minha m...
- Não, não quero saber Mauro. Sério. Pra mim acabou, se cê vai sair por essa porta, é pra sair da minha vida. Eu não vou agüentar você me ligar, saber da sua vida, não quero saber. Te pedi pra dizer algo decente, não uma merda dessas. Melhor você não falar nada mesmo.
Ele vira a chave. Sai do apartamento. Ela bate a porta e olha pelo olho mágico. Tem a impressão de que ele olha para trás antes de entrar no elevador.
Ela senta no chão, de costas pra porta. Duas e meia da manhã.
(Julho 2007)
Mari comeu uma bolinha verde às 03:20

25 de abril de 2009
TRAIÇÃO
Ele sentiu o estômago virar uma bolota e cair até seus pés, de tão pesado.
O coração acelerou e a ficha caiu tão rápido que ele ficou cego, surdo e mudo por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
Era uma voz de homem no outro lado da linha. Do outro lado da linha do celular dela. Ela que até hoje era sua.
E de repente, foi como se sua vida passasse diante de seus olhos.
***
Décimo e último filho. Sua mãe o amava do jeitinho brasileiro de mãe amar.
Seu pai era um homem distante e excêntrico, para quem cada um de seus filhos tinha um nome estranho e diferente. Foi motivo de chacota na escola e na vida por causa de seu nome estranho. Aprendeu com o tempo a rir de si mesmo.
Foi um menino bonito, um rapaz lindo e um homem que poderia ter qualquer mulher que quisesse. Mas não era mulherengo.
Aprendeu a gostar de cinema sozinho. E de rock'n'roll também. O pai era fotógrafo. Pegava a câmera dele escondido, brincava de tirar fotos.
A mãe ria de suas travessuras e fingia que entendia os sonhos de ser alguém daquele menino. Porque ele queria muito ser alguém.
Era um cara alegre divertido, fazia todos a sua volta sorrirem sempre. E se alguém, num canto, não estava sorrindo, ia até lá saber porque e como podia ajudar.
Ajudou todos os irmãos, os pais, primos, tios, vizinhos, amigos. Uma vez abriu um negócio com dois amigos. Assim que fizeram uma grana, um desses amigos fugiu com tudo e nunca mais apareceu. Talvez polícia, talvez bandido, talvez pura safadeza. Ele nunca soube o motivo.
Um dia conheceu uma moça, amiga da namorada do amigo. Ela não era bonita, nem tinha grandes aspirações na vida. Os dois tinham 25 anos e o sonho dele de abrir uma videolocadora e ser alguém não parecia estar perto de se tornar realidade. Ela vinha do interior.
Muitas cervejas e noites bêbadas juntos. E uma menininha morena nasceu.
Ele tentou ser marido e pai. O menino bonito que queria que todos fossem felizes tentou de verdade fazer das duas uma família. Mas não conseguiu. E pra fazer com que ela o deixasse ir, mentiu e disse que a tinha traído. Ela chorou. E ele não se importou, porque com ela, ele não era ninguém.
E ele trabalhou muito, pra ser alguém.
Dois anos depois, o rapaz lindo conheceu outra mulher. E por ela se apaixonou. E amou. E casou. E fizeram outra menininha. Essa era cor-de-rosa. E montaram uma casa. E fizeram dívida no banco. E compraram carro, TV, panela de pressão e pregador de roupa. E ele era feliz. Ele era alguém.
E um dia ele atendeu o telefone dela e era uma voz de homem.
***
Desligou o telefone. Matou a mulher que estava no chuveiro.
Mari comeu uma bolinha verde às 22:44

23 de abril de 2009
THE TURNING POINT
E de repente eu percebi que ia me ferrar bonito.
Mas tava aquele cara ali, rindo, e os dentes dele eram certinhos branquinhos e a gente tava jogando boliche numa terça feira de Carnaval no Guarujá e ele não tava gritando comigo só porque eu jogo mal pra caralho. E ele tava me pegando no colo e dizendo que eu era linda e muito engraçada. E eu não tava nem aí pro fato de ele ter uma barriguinha protuberante ou pêlos no peito. Eu só via o sorriso dele e o fato de que a gente tinha escutado jazz a madrugada toda.
E foi aí que eu devia ter saído correndo, voltado pro hotel, pegado minhas coisas e ido embora no primeiro ônibus de volta.
Mas não fui. É, não fui mesmo.
Mari comeu uma bolinha verde às 14:25

22 de abril de 2009
FÔLEGO
Feriado nacional, cinco e meia da tarde, metrô Sumaré, direção Alto do Ipiranga.
Elisa entra no último vagão e se dá conta que está sozinha.
É uma chance única, raríssima. Espera o trem deixar a estação, deixa o livro aberto e sua bolsa no banco, e acompanhando o impulso e a velocidade, corre até a ponta do vagão, destrambelhadamente. Vira e corre até a outra, sorrindo e de olhos fechados. E de novo, parando no seu lugar, quase caindo e com os cabelos na cara. O trem desacelera. Ela senta e retoma sua leitura.
O vagão para na Clínicas. Cinco pessoas entram. Ninguém nota as bochechas vermelhas, ninguém ouve seu coração batendo tum-tum-tum, mais alto que escola de samba. Ninguém percebe que ela está sem fôlego.
Sorri sozinha.
Mari comeu uma bolinha verde às 01:42

15 de abril de 2009
ANIVERSÁRIO
Ela abre a pasta de fotos no "Meus Documentos" e clica na data do seu aniversário do ano anterior.
Nas fotos sete pessoas aparecem, além dela.
E com um peso no peito, repara que nenhuma delas está mais em sua vida.
Uma delas não lhe importa, o ex namorado de uma amiga, de quem nunca gostou e que fez figuração (e atrapalhou um bocado) na sua festinha em casa. O cara chegou pedindo pra ver jogo de futebol, duas horas depois do jantar programado, quis comer e ainda garfou o bolo direto da travessa. Só faltou perguntar se não iam cantar "Parabéns" pra ele também. Mas naquele dia ela estava tão feliz que nem se importou.
Vê os sorrisos dos avós e da mãe. Todos morando longe agora.
Suas melhores amigas, junto com ela, sorrindo em frente ao piano.
A morena se tornou tão difícil de conviver que só restou deixar a amizade de lado. Passa uma bela foto da moça rindo, dentes brancos e os cabelos jogados pra trás.
A ruiva não aguentou mais ouvir seu choro e se afastou. Talvez fosse uma daquelas amigas só para momentos felizes... como esses das fotos. Aqui está ela beijando o agora ex.
E a loira, a melhor das amigas... Não sabe o que aconteceu até agora. Mais de uma década de amizade e de repente... Onde as coisas desandaram? Quem elas são agora? Por que as coisas simplesmente não são mais as mesmas?
E finalmente... o homem por quem era apaixonada. Era? Ou é. Não sabe. Não sabe mais dizer se aquele sorriso dele registrado pela câmera era sincero. Parecia que sim, na época e ainda agora... Será? Será que a amou um dia? Será que teria ficado, não fossem tantos os erros? Será?
O "Parabéns" foi animado, liderado pela mãe, empolgadíssima como sempre. O bolo maravilhosamente coberto de chocolate com morangos, pesando uns cinco quilos, feito carinhosamente pela avó. Todo mundo repetiu.
E o espumante foi tomado, e as fotos vão mostrando risadas cada vez maiores, sorrisos cada vez mais largos, bochechas cada vez mais vermelhas, brindes cada vez mais animados.
E se depara com uma foto sua. Estava tão feliz. Tão rodeada por pessoas em quem confiava e amava e por quem se sentia amada de verdade. Lembra de ter pensado nesse dia como sua sorte era grande de todas aquelas pessoas estarem reunidas ali naquela sala.
Tinha planos de ir dançar com a morena no fim de semana seguinte.
Tinha planos de ir ao cinema com a ruiva e depois comer um temaki, quem sabe.
Tinha planos de que se tivesse filhos um dia, chamaria a loira para ser a madrinha deles.
Tinha planos de almoçar com a família no dia seguinte.
Tinha planos de passar o resto da vida com aquele homem.
Ah... tolinha. Fecha a pasta e desliga o monitor.
Vai comer um miojo, em pé, na cozinha.
Mari comeu uma bolinha verde às 01:55

12 de abril de 2009
PEDAÇOS
O pai era um totem, calado, frio, gelado, durão, grosso. Da terra. Dele ela herdou o jeito sisudo e o gosto pela leitura.
A mãe era castigada pela vida, morena, pequena, forte, firme, com os dois pés plantados no chão. Dela herdou a cor, os cabelos e a teimosia.
Seu irmão era o melhor aluno da escola, o mais bonito da roda, o melhor dançarino da festa, o mais querido da família. E sucedeu que foi morar no exterior.
Ela conheceu um moço. Ele tinha cabelo comprido, falava errado, mas falava bonito. Ele estudava as coisas misteriosas da terra, e mexia com ela. Ela teve um filho dele.
Apanhou, bateu, cheirou, fumou, saiu, voltou, beijou, trepou, casou, divorciou, pariu, cortou o cabelo, deixou crescer, mudou de roupa, comeu, bebeu até cair, dançou, chamou, chorou, sorriu e riu demais. Era um riso que preenchia uma casa toda. E a deixaram, e voltaram pra ela, e a abandonaram de novo.
E na sarjeta, cheirou coca branquinha numa nota de dois reais e chorou e gritou e com sua figura triste, triste me contou sua vida:
Foi amada, foi deixada. Engravidou e pariu. E amou e traiu. E levou bronca de mãe e sarcasmo de pai. E saudade do irmão.
E chorou, chorou porque seu irmão tirou dez naquela prova de matemática que ela nunca conseguiu passar e porque seu filho de cinco anos já sabia que não podia contar com o pai e porque seu namorado a tinha chamado de vagabunda e porque só tinha meio grama de coca e porque a cerveja acabou e porque seu cabelo não era liso e porque a música não tocou e porque sua melhor amiga já não era mais e porque queria ter oito anos outra vez para pular amarelinha e porque tinha a conta do gás pra pagar e porque seu salto quebrou e porque traiu.
Virei as costas e me odiou, xingou e amaldiçoou.
***
A mãe era jovem, bonita, pele marrom, sorriso cheio de dentes, cabelos cheios de cachos, cabeça cheia de confusões. Dela ele herdou a cor, o sorriso, o nariz, a alma de herói.
O pai era misterioso, falava da terra e das pedras como quem fala de amor. Cabelos compridos, dentes pontudos e unhas sujas. Dele herdou o jeito pensativo e os joelhos.
Não tinha irmão pra sentir saudade, mas saudade era uma coisa que já tinha aprendido a não sentir desde sempre. Saudade dói demais.
E cresceu.
Encontrei o menino já homem no velório de sua mãe.
Com uma garrafa na mão me contou, triste, a história que eu já conhecia. E chorou, chorou por aquela mulher que o abrigou no ventre e o criou e o abandonou. Que o amou e deu bronca, e trocou fralda e ensinou a dançar e a beber. E que apanhou e disfarçou e cheirou e fumou e riu, riu, riu aquela risada que preenchia uma casa toda.
Virei as costas e não me odiou, xingou ou amaldiçoou.
Mari comeu uma bolinha verde às 01:54

inCubadora
Ele sentou com as mãos na cabeça e ficou olhando pro vaso em cima da mesa.
Queria tocar saxofone assim como aquele cara na avenida Malecón, mas três coisas faltavam:
Talento, ritmo e o sax em si.
Queria ter sido ator.
Ou talvez pintor, ou até mesmo artista plástico. Pianista, guitarrista, baterista, malabarista.
Talvez um mímico. Cantor. Empinador de pipa. Bailarino?
Tinha alma de artista, sabia. Era um apreciador nato. De Thelonious Monk a Mona Lisa, de Truffaut a Kubrick, ele sabia apreciar tudo o que a arte pode oferecer. Nijinsky, Gaudi, James Joyce, Hermeto Pascal.
Mas, quando chegava sua vez de produzir, contribuir... nada. Nem uma nota era emitida, nem por sua voz nem por outro instrumento mais externo. Nem uma linha era traçada, uma pincelada, um passo, uma pirueta bem dada. Nem uma fotografia inspirada.
E queria gritar, gritar, gritar que era artista, que sua arte era linda, linda, linda e que pelo mundo devia, tinha que ser vista e ouvida e apreciada. E não tinha nada.
Assim, o grito não podia ser dado, pois o mundo exigiria provas dessa beleza que ele afirmava ter dentro de si.
E aquele grito entalado.
Um artista inCubado.
Mari comeu uma bolinha verde às 00:43
